Amara Hartmann encontrou na arte um caminho para transformar experiências difíceis em afeto e acolhimento. Atriz da novela Dona de Mim, ela também é escritora de literatura infantil e lançou Lia Roxa e a Matinta Pereira, livro inspirado em vivências pessoais marcadas pelo bullying. Em entrevista ao Notícias da TV, a artista conta que a obra nasceu da vontade de conversar diretamente com as crianças sobre dor, pertencimento e potência.
Segundo Amara, o desejo de escrever para o público infantil não foi algo planejado desde o início da carreira, mas um movimento que surgiu naturalmente. "Eu costumo dizer que eu não escolhi as crianças, que as crianças me escolheram", afirma.
Formada em teatro, ela explica que a escrita sempre esteve presente como um sonho paralelo à atuação, especialmente pela possibilidade de incentivar crianças a acreditarem em si mesmas.
Na trama, o leitor acompanha Lia, uma menina comum que carrega um detalhe fora do padrão: seus cabelos são roxos. O que poderia ser apenas uma característica divertida acaba se tornando motivo de estranhamento na escola, despertando olhares tortos e situações de bullying.
Diante disso, Lia passa a enfrentar o doloroso sentimento de não pertencimento, típico de quem cresce se sentindo diferente dos demais. Em meio às dificuldades, ela encontra apoio em uma coruja dourada, sua melhor amiga e símbolo de sabedoria e proteção, que a acompanha nos momentos mais delicados.
Ao longo da história, Lia descobre fazer parte do clã das Tintapereiras, mulheres ligadas à magia e à natureza, e inicia uma jornada de autoconhecimento e aceitação. O livro reforça, de forma sensível, a ideia de que a diferença não é um problema --mas um verdadeiro superpoder.
A obra foi escrita entre 2018 e 2019, mas só agora chega ao público. A atriz relata que o processo foi atravessado por uma reconexão com a própria infância: "Foi meio que um encontro da Amara adulta com a Amara criança".
A história dialoga com a experiência de se sentir diferente e excluída, algo que ela viveu na escola por não se encaixar nos padrões. "A gente que é artista é meio fora da caixinha mesmo", explica.
Durante o desenvolvimento do livro, Amara fez cerca de 20 leituras em escolas e percebeu o impacto do tema. Para ela, muitas dores infantis ainda são deixadas de lado pelos adultos. "As crianças têm muitas dores que a gente, enquanto adulto, acaba dando uma ignorada", aponta. A escritora acredita que falar sobre bullying é uma forma de acolher e também de provocar reflexão.
Além das crianças, a artista faz questão de destacar que o livro também conversa com os adultos. Ela diz ter se surpreendido ao perceber atitudes de bullying entre pessoas mais velhas. Para Amara, é preciso olhar não só para a vítima, mas também para quem pratica a exclusão. "Vamos parar e ver quando a gente tá excluindo alguém só porque essa pessoa é diferente", reflete.
Dona de Mim e a magia de Suely Franco
Paralelamente à literatura, Amara viveu um momento importante na televisão. Em Dona de Mim, novela que chegou ao fim na sexta (9), ela dividiu a personagem Rosa com Suely Franco, uma das grandes atrizes da dramaturgia brasileira. Enquanto a veterana fazia a personagem nos dias atuais, Amara a interpretava em sua juventude.
A atriz conta que a troca entre as duas foi marcada por leveza e aprendizado. "Ela encara tudo com muita leveza, faz piadas, é divertida e, ao mesmo tempo, muito profissional", elogia.
Amara destaca que aprendeu com Suely a importância de brincar em cena sem perder o rigor técnico. "A gente falava muito na faculdade que o ator tem que se inspirar na criança brincando de casinha, e fizemos muito isso lá", diz. Segundo ela, essa combinação de entrega, diversão e seriedade foi uma das maiores lições do trabalho na novela.
Ao falar sobre o significado de Dona de Mim em sua trajetória, a atriz ressalta que o papel simboliza a confirmação de um sonho antigo. Vinda de uma cidade pequena, ela sempre enxergou a televisão como algo distante. "Foi uma prova de que é possível", valoriza, ao se lembrar da importância de acreditar e sonhar grande.
Para o futuro, Amara diz querer seguir nesse caminho múltiplo, transitando entre TV, teatro e literatura. "Eu entendi meu lugar no mundo, com quem eu quero falar", sentencia.
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